SOBRE A SOMA

O QUE É E COMO FUNCIONA A SOMA

A Soma é uma terapia em grupo, que investiga o comportamento individual e as formas de como nos relacionamos junto ao outro. Sua emergência ocorreu durante a ditadura civil-militar, na década de 1970, como uma terapia corporal e libertadora desenvolvida por Roberto Freire, inspirada no anarquismo e nas ideias de Wilhelm Reich.

Se no passado, a Soma surge como contraponto ao autoritarismo e ao conservadorismo da época, hoje, nos interessa perceber como ocorrem as formas de controle dos corpos e subjetividades, a fim de ampliar o estudo psicológico junto aos fenômenos sociais e políticos de nosso tempo presente.

Além da psicologia corporal de Wilhelm Reich, a Soma fundamenta sua prática na Gestalt-terapia e na Antipsiquiatria para se consolidar como uma abordagem contemporânea, direta e a serviço do processo de autonomia das pessoas. Ao absorver da Gestalt a centralidade no momento presente e na percepção do corpo, e da Antipsiquiatria a crítica ao modelo médico tradicional e à patologização do sofrimento, a Soma recusa dinâmicas de poder e diagnósticos engessados.

O processo terapêutico ocorre na interface entre o corpo e as emoções, estimulando os indivíduos a reconhecerem suas próprias travas e a superarem a autorrepressão sem criar dependência do terapeuta. Dessa forma, o fortalecimento psicológico e a libertação individual firmaram-se como pilares indispensáveis para a conquista da autonomia e para redimensionamentos de nossas sociablidades.

Como uma terapia libertária, a Soma entende o comportamento humano a partir do cotidiano das pessoas e suas interações sociais. São os jogos de poder, presentes nas relações dos dia a dia que produzem o germe do autoritarismo social, onde questões como a competição e a exploração já não devem ser tratados apenas como questões de mercado e ideologia. Torna-se inegável a influência destes valores sobre áreas vitais das relações humanas. Para a Soma, portanto, a política começa no dia a dia, no que chamamos de uma política do cotidiano e está diretamente implicada em nosso funcionamento emocional.

Diante disso, os grupos da Soma se propõem a funcionar como laboratórios sociais, que buscam representar uma “fatia” da sociedade e das interações que vivemos. Neles, buscamos perceber como as práticas de poder estão engendradas em nosso comportamento, como afetamos e somos afetados pelos outros. Ao mesmo tempo, a dinâmica de grupo nos auxilia na construção de um processo terapêutico que não está separado de uma forma de viver ética e politicamente mais livres. A terapia de grupo cria um espaço de entendimento sobre si mesmo, onde o outro é uma espécie de espelho social, refletindo nosso jeito de agir e se comportar.

Os objetivos da Soma estão ligados a questões como se investir em uma subjetividade libertária? Que ética é possível para pensar a autonomia? Como estabelecer as bases de uma sociabilidade apoiada na defesa das diferenças individuais? E como situar o corpo no centro da intersubjetividade?

METODOLOGIA

A Soma tem um tempo determinado de duração (cerca de um ano e meio), para evitar a dependência terapeuta/cliente e é realizada em sessões de duas a três horas cada (são quatro por mês). Cada sessão é composta de exercícios corporais, dinâmicas de grupo em autogestão e estudo crítico de nosso comportamento.

Uma sessão inicia-se com a prática de uma dinâmica corporal. São exercícios próprios da Soma que atua sobre diferentes áreas do comportamento como a agressividade, a criatividade, a comunicação, a sensorialidade etc. Eles têm tanto uma função bioenergética (mobilização da couraça neuromuscular), como também auxiliam na percepção de questões sobre nossa forma de atuar no cotidiano.

Após essa etapa, o grupo realiza a leitura do exercício. É o momento de usar a fala para problematizar as sensações e percepções que emergiram da etapa anterior e articulá-las com o cotidiano. Nesta etapa, cada membro começa a produzir sua autonomia terapêutica, desenvolvendo um olhar e uma compreensão maior, a partir do corpo e sua subjetividade, sobre as atitudes e comportamentos na vida. Por fim, há o fechamento da sessão, onde o terapeuta sintetiza os principais elementos apontados pelo grupo dentro da visão libertária da Soma.

Ao longo do processo, são realizadas até três maratonas de campo: viagens a regiões onde a natureza esteja preservada (Visconde de Mauá – RJ, por exemplo). Nestas imerssões que duram um fim de semana, trabalhamos em contato direto com a natureza, como na subida de rios, caminhadas e trilhas. 

Ao final do grupo, quando se esgota a bateria de mais de quarenta exercícios, concluímos o processo terapêutico de cada membro com a cadeira quente. Nesta etapa, cada sessão de três horas é dedicada a um membro do grupo como forma de organizar seu material vivido durante o processo do grupo. Este período é o mais importante da Soma, onde atingimos o máximo da compreensão autogestiva do processo terapêutico. Todos fazem a cadeira quente, inclusive o terapeuta.

A Soma investe, a partir desta maneira de fazer terapia, na construção de espaços de liberdade, na busca da autonomia e na produção autogestiva vividas no presente. As bases teóricas e metodológicas que compõem a Soma, encontram uma convergência comum na elaboração de uma terapia com objetivos claramente libertários.

BREVE HISTÓRICO

O nascimento da Soma aconteceu num crítico cenário da história do Brasil, no período do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Os jovens que lutavam contra a ditadura não dispunham de um método terapêutico em que pudesse confiar, politicamente, no atendimento dos desequilíbrios emocionais e psicológicos provocados em suas vidas pela rejeição e repressão autoritárias das famílias burguesas, ligadas à repressão dos militares e políticos fascistas. A necessidade em criar um suporte terapêutico com objetivos políticos explicitamente libertários, capaz de atender a esta realidade vivida neste período, foi elemento fundamental nesse processo. Foi desse cenário que surgiu a Soma, fruto das experiências do Roberto Freire em teatro, na ação política contra a ditadura civil-militar e no encontro com as obras de Wilhelm Reich, da Gestalt-terapia e da Antipsiquiatria, tudo isso mesclado com uma visão anarquista das relações de poder.

A Soma nasceu de uma pesquisa sobre o desbloqueio da criatividade, realizada no Centro de Estudos Macunaíma, em São Paulo, Brasil. Através de exercícios teatrais, jogos lúdicos e de sensibilização, Roberto Freire e uma equipe de colaboradores (Mirian Muniz, Silvio Zylber e Flávio Império) criaram uma série de vivências que possibilitavam uma rica descoberta sobre o comportamento, suas infinitas e singulares diferenças. Perceber como o corpo reage diante de situações comuns no cotidiano das relações humanas, permite a construção daquilo que caracteriza as pessoas enquanto singularidade para criar uma sociabilidade nova, onde a massificação ceda espaço à diferença.
Mesmo diante de uma sociedade dita democrática, após a “abertura política” com o fim da ditadura civil-militar no Brasil, vivemos num mundo cada vez mais marcado pelos sutis mecanismos de controle. Se no passado a presença do autoritarismo era explícita, hoje o poder navega por camadas menos óbvias de captura das singularidades, tornando-se mais complexo e perverso.

As correntes teóricas em que nos baseamos estão diretamente ligadas a estas análises sociais e políticas na atualidade e adotadas por nós com o propósito de criar resistências contra as práticas de poder que capturam o que há de singular em cada um.

Sugestão de leitura

Soma - Corpo a Corpo - Roberto Freire e João da Mata.

Leia aqui na íntegra